quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O TRATAMENTO FILOSÓFICO PARA A QUESTÃO ÉTNICA NEGRA - nova versão

Jorge Alves de Oliveira

Resumo
O texto objetiva colocar em evidência alguns conceitos que possibilitem uma reflexão sobre a questão étnica negra acreditando que tal procedimento possa interferir na crença e na atitude das pessoas que se aproximam desta temática. Para efetivar este propósito, valho-me de alguns elementos centrais da filosofia, a saber, da reflexão filosófica e da ressignificação de conceitos. Trata-se, portanto, de recolocar a questão étnica negra, dentro de outra perspectiva. A metodologia sugerida tem seus fundamentos na ‘educação para o pensar’ em especial, nas proposições elaboradas pelo filósofo educador Mathew Lipman.

Palavras-Chaves
Atitude; conceito; crença; diálogo; educação; etnia; problematização; ressignificação; tolerância; relação eu - outro; exposição; virtude.

Abstract

The text aims to highlight some concepts that allow a reflection on the ethnic issue negra2 believing that this procedure may interfere with the belief and the attitude of people approaching this issue. To actualize this regard, unworthy me of some central elements of philosophy, namely the philosophical reflection and re concepts. It is, therefore, to replace the black ethnic question within another perspective. The methodology suggested has its roots in 'education for thinking' in particular, the proposals drawn up by philosopher educator Mathew Lipman.

Keywords

Attitude; concept, belief, dialogue, education, ethnicity; problem; resignification, tolerance, respect me - another; exposure; virtue.


I. Introdução
1. A questão étnica em tempos de exposição do eu
A questão étnica se apresenta como aquelas questões intermináveis. A cada momento, da história, ela surge com uma nova roupagem, fazendo com que os conceitos e as práticas, até então vigentes, sejam revistas. Quando alguma resistência se
impõe e, esta revisão não é realizada, as relações ficam esvaziadas e, perdem o significado, instaurando-se a crise.
Tal como ensina Arendt (2003) a crise é a ausência de significados compartilhados. Na prática, a aplicação é esta. Vive-se no mesmo contexto social, mas os entendimentos são divergentes, quando não antagônicos. A ausência de fóruns que oportunizam os debates públicos e, os recorrentes artifícios que impedem o efetivo exercício da reflexão (que se deseja, filosófica), dificultam o trânsito de idéias e uma avaliação compartilhada. O resultado mais contundente desta ausência de significados compartilhados é a violência. Porque não partilhamos dos mesmos conceitos e as práticas não são comuns a todos, a comunicação fica truncada e, quando falta a palavra, o espaço é ocupado pelos diversos tipos de violência.
Na atualidade, século 21, os questionamentos se voltam para o fato de que algumas apostas, feitas ao longo da história e, concretizadas, sobretudo na segunda metade do século 20, não contribuíram, a contento, para um efetivo convívio interpessoal. Ao contrário. Há sinais explícitos de que esta relação eu/outro está abalada e, que existem práticas deliberadas visando a atingir e, até eliminar, o outro. Dentre as apostas e concretizações a que mais salta aos olhos é sem dúvida esta possibilidade de visualizar o outro, resultado obtido com o fenômeno da globalização cultural, promovido pela mídia. Por mais distante que o outro esteja geograficamente falando, ele se faz presente, questiona, instiga, propõe. Entenda-se por visualizar, também, o saber do outro, o poder compreender qual é a lógica do raciocínio feito por este.
Num primeiro momento, esta condição de exposição, traz uma perspectiva de criação de parceria. Visualizar o outro, saber do outro, criar algo novo de significado compartilhado. Mas, outra leitura, da mesma condição, aponta para ações de confronto acirrado entre eles. Muito diferente da composição com o outro, deu-se vazão ao embate com o outro. E, este estado, segundo, é o objeto de inquietação e de questionamento. Um ‘mal estar’, para usar a expressão de Freud (2002), recuperada por Bauman (1997), que não pode ser ocultado na violência do silêncio como ocorre agora em meio ao ativismo frenético.
Certos temas, o da étnica negra é um deles, são silenciados ou tomados como secundários, tendo como respaldado os inúmeros afazeres do quotidiano. Age-se, mas não se reflete sobre as ações. Não se deseja, por outro lado, que a violência do silêncio seja substituída pela violência da truculência verbal. Esta última ocorre sempre naqueles momentos onde impera os elementos passionais decorrentes de algum fato pontual. Em tempos de crise, como o atual, é necessário que se busque a serenidade, possibilitando, a todos, a condição para ressignificarem os conceitos e reverem as práticas no que se refere, em especial, à questão étnica.
Esta ressignificação de conceitos e de atitudes, dentro da proposta, aqui formulada, de uma ‘educação para o pensar’, com corte filosófico, se efetivará por meio da reflexão filosófica. No contexto da questão étnica, as informações históricas são necessárias e relevantes, mas, orientados pela reflexão filosófica, os envolvidos terão a possibilidade de reverem os conceitos, reavaliarem as atitudes e ressignificarem a vida em sociedade. Neste sentido a reflexão filosófica apresenta-se como uma possibilidade de construção de novos entendimentos e, da promoção de mudanças de atitudes para além das informações de natureza históricas. Estas devem ser apresentadas, tornarem-se objeto de estudo, mas, para esta proposta, não tem a força para a mobilização que altera as atitudes.

II. A metodologia e seus pressupostos
Por um semestre, utilizei junto aos alunos do primeiro ano do ensino médio, o material, ainda não publicado, intitulado, “Amantes do Futebol”. Trata-se de uma novela criada por este autor, cuja trama envolve os jovens, a escola, o bairro, a paróquia. Estes estão envolvidos com um campeonato de futebol e o nascimento de uma banda musical. Em meio a tudo isto está presente a questão étnica negra. Foi a primeira pilotagem do material para verificar a sua eficácia. Meu objetivo era o de verificar o quanto os alunos tratavam destas questões e, como seria possível sair das avaliações comuns que permeiam a questão étnica, para atingir um patamar de conceituação, algo mais refinado no pensamento humano. O resultado final indicou que o trabalho é lento. Superar idéias consolidadas não é tarefa fácil. Mais complicado ainda é a alteração das atitudes, pois estas são construídas, não impostas. Até porque a própria metodologia já implica em mudança de postura.

1. Três pilares desta metodologia
Tomando por base os escritos do filósofo americano Mathew Lipmam é possível identificar três pilares fundamentais para que esta reflexão filosófica ocorra a contento.

1.1. A Pergunta
Pautado no entendimento de que o homem como um todo, em especial a criança, é movido pela curiosidade, pelo maravilhamento frente ao mundo que lhe cerca, ele transforma estas apreensões em perguntas. Por vezes perguntas pontuais – você me ama? Por vezes perguntas profundas que exigem uma maior atenção – o que é o amor? Ou o que é amar?
O fato é que ele pergunta e neste ato, muitas vezes, acaba colocando em xeque conceitos e atitudes. Uma vez que se aperfeiçoe esta capacidade de perguntar, exige-se mais da capacidade de responder. Ora, é neste sentido que a escola pode contribuir na formação dos novos. Incentivar a perguntação, aperfeiçoar a qualidade e a intensidade da pergunta para que cada vez mais ela traduza aquilo que se deseja saber.

1.2. O Diálogo
Uma vez que se tenham perguntas para responder e, que as respostas não se encontram prontas, é necessário que se veja, no outro, um grande colaborador, alguém que, também, busca respostas que signifiquem aquilo que está sem sentido. Determinadas questões, aquelas, cuja temática envolve a todos, não são respondidas isoladamente e, para tecer a rede de ligações, é necessário o esforço de muitos outros.
O aceno para o diálogo traz consigo uma dinâmica quase paradoxal. Ao falar reflexão é comum o reporte aos lugares mais íntimos – na montanha onde supostamente está o monge, no convento onde se encontra o religioso, nas igrejas onde está o piedoso. Mas, esta imagem, ainda que sugestiva, não é correta. Todos os personagens estão de alguma forma, dialogando com alguém. Aqui, o apontamento está sendo feito para a reflexão filosófica que ocorre com o outro, dentro do espaço da sala de aula, com todas as características que lhe são próprias. É ali que muitas vezes as pessoas, mesmo interagindo, se isolam no seu mundo interior e reflete o que ouvem, mas também, falam. É ali, que as idéias borbulham, necessitando de um repouso, mas que, também, recebem subsídios para se recomporem. Assim, reflete-se em grupo, reflete-se sozinho, repete-se a reflexão no grupo, até que se formalize um entendimento minimamente partilhado.
Este diálogo necessita de boas perguntas, pede argumentação e possibilita a auto-correção, contribuindo, fortemente, para que haja formulações de significados compartilhados.

1.3. Sala de aula
A reflexão filosófica tal como está sendo apresentada se dá dentro de um grupo que partilha de problemas comuns. Não se trata de um pseudo-problema implantado apenas para que se cumpra a formalidade da aula.
O problema é comum, pois marca um momento especial que é do grupo como um todo. E, sendo de todos, também a sua solução exige a participação de todos. O caráter investigativo está assentado na procura de dados, nas formulações e verificações das hipóteses, na contribuição de todos em construir as novas ressignificações. É investigativo porque não se fecha na primeira formulação e, mesmo que o grupo atinja um ponto comum, sempre haverá a possibilidade de que se retorne à pauta.
Vale dizer que também aqui existe um paradoxo. Recuperando aquele entendimento de que a escola trabalha com saberes sistematizados que devem ser dominados pelos novos, como é possível tal investigação que questiona ou até mesmo suspende certos saberes já consagrados? A saída para esta questão, nada simples, é que esta investigação implica justamente na análise deste conhecimento já constituído, entender os pressupostos que estão colocados e as bases de sua sustentação. Tal processo deve garantir a aprendizagem daquele conhecimento, ao mesmo tempo em que capacita o grupo a tecer críticas.

A metodologia proposta e, aplicada, portanto, é teórica e prática ao mesmo tempo. Este é o dado significativo que faz com que a questão étnica seja trabalhada em outras perspectivas.

III. A questão étnica não é questão social
Já fora acenado, anteriormente, sobre o silencio que se quer impor à questão étnica, por isso, ainda é necessário explorar tais intenções. Uma das tentativas de silenciar a questão étnica é a de querer submetê-la à questão social. Não são recentes as formulações que buscam enfatizar que a questão étnica está contemplada quando se discute as questões sociais. Muitos apregoam que uma vez resolvida as gritantes desigualdades sociais, advindas, em especial, do sistema econômico, as atitudes e as ações discriminatórias cessariam.
As teses, que submetem a questão étnica à questão social, não são desprovidas de nexo. Existe, de fato, uma forte correlação entre a pobreza e a discriminação étnica. Não são poucas as estatísticas que identificam nos bolsões da pobreza, um contingente significativo de negros. E, não é necessário voltarmos à história para entender o porque desta condição. A tão sonhada redistribuição de renda nunca ocorreu de fato e o fosso entre ricos e pobres, somente aumentou ao longo dos tempos. O declínio econômico e social, também, afetou outras etnias, que até então possuíam um status considerável. Tal queda fez com que muitas reivindicações, específicas da etnia negra, passassem também a ser pauta daqueles novos subtraídos. Neste sentido o discurso étnico negro ficou comprometido, mas não desautorizado.
As reivindicações desta etnia permanecem legítimas por que a tese da questão social, isolada, não se sustente na prática, por duas razões. Primeiro. As reivindicações não são de ordem privada, mas, públicas. Educação, saúde, a posse da terra, implicam em mudanças estruturais, que por sua vez, obriga a reconfiguração de uma nova visão de mundo. Segundo. A experiência, também, aponta para uma infinidade de relatos onde pessoas negras, com uma vida social estável e com uma conta bancária invejável, foram vítimas de algum tipo de discriminação. E por quê? Porque esta condição não está estampada na pele. A questão étnica, portanto, é de outra ordem que envolve a concepção do que seja o homem e, de como lidar com o diferente.
Trata-se, assim, de outro tipo de violência querer desviar o foco da questão. O problema, na sua base inicial, é sim, de pele e, não de outra ordem. As demais dificuldades que se impõem são derivações. O que se quer fazer perceber é como se trata o outro, este outro identificado como o diferente. A cor da pele ressalta o diferente, tal como os traços femininos destacam-se em meio ao grupo masculino. Como o obeso se diferencia entre outros corpos. Como o idoso com sua pele enrugada e com seus movimentos lentos frente a sociedade. Tal como a criança com sua vitalidade e os aspectos físicos próprios da idade.
Negro, mulher, obesos, idosos, crianças e, tantos outros, trazem na pele e no corpo as marcas irrefutáveis de que não são iguais aos demais. Suas características não podem ser negadas, ocultadas, sem a pena de se transformarem em anomalias, em outra coisa diversa de si mesmas. E é pelo olhar nesta pele e neste corpo físico que se dá conta de que são diferentes e que são tratados distintamente. O ideário, ainda presente, de uma padronização dos indivíduos forjou, ao longo da história, inúmeras teorias e ações. As práticas de eugenia e o discurso da limpeza étnica, objetivando a garantia da ordem e da segurança, frente ao diferente, tomam outras formas a cada tempo. ‘Outras’, mas nem sempre compartilhadas, nem ressignificadas, no sentido, da reflexão filosófica. Isto tudo para dizer que as habilidades, as capacidades intelectuais, as riquezas materiais, não estão estampadas em seus corpos e pele. Os possíveis adornos, que vieram a portar, mesmo tomados como indicadores de um status sociais, não serão capazes de revelar quem são.

IV. A educação escolar e o espaço para a reflexão
Não se trata de ver, na educação escolar, a ação redentora. As inúmeras instituições sociais, bem como todos os canais presentes na sociedade, formadores de opinião e de comportamento, não estão desobrigados de abordarem a temática étnica. Mas, dentro desta temática – eu e o outro: o diferente – a educação escolar deve assumir uma característica especial que envolve superar o fosso entre o saber e o fazer. Não basta, tão somente, saber que existe a discriminação. Este saber requer um fazer, uma atitude. A contribuição decisiva girará sobre o desafio de se oferecer subsídios teóricos e ações práticas para que, professores e alunos, busquem pontos de significações compartilhadas, fazendo com que na diversidade haja harmonia. A insistência em evidenciar as diferenças ou enaltecer a individualidade é válida, enquanto estabelecimento de locais de onde se fala, mas o desafio centra-se no saber e no fazer, que correspondam em reconhecer o outro e buscar compor com ele.
Este reconhecimento remete o sujeito à história do outro, à sua origem, aos seus costumes, à sua visão de mundo. A composição com ele é uma aposta, a crença de que ele tem algo a oferecer e, que juntos, e tão somente, com o outro, é que se pode humanizar-se. Reconhecimento e composição que implicam em uma nova postura diante de si mesmo e frente ao outro – o diferente. Uma disposição interna na busca de aprimorar a si mesmo e o outro. A filosofia trata desta questão ao abordar o tema da virtude.

1. A reflexão filosófica e o cultivo das virtudes
Para alguns, virtude e tolerância, são duas palavras esvaziadas de sentido, levando-se em conta, os nossos tempos. Eles dizem que devido aos variados usos, tais palavras não provocam reflexões, muito menos mobilizam para as ações. Contrário a esta posição, apresenta-se a proposta de ressignifica-las e aplicá-las à temática da questão étnica.
A virtude tem sua origem na palavra grega areté e, designa, entre outros entendimentos, a excelência moral . Considerando que cada ser e cada ação possuem o seu ápice de grandeza, dada a sua potencialidade, todo o esforço para atingir aquela meta, será constitutivo da virtude. O oposto, ou seja, tudo aquilo que o afasta daquele ápice, será tido como vício. Tem-se, assim, a possibilidade de dizer que certas ações são virtuosas, pois auxiliam o ser a atingir o seu máximo de condição de ser. Estas ações são desejadas e, incentiva-se o seu cultivo. Tais formulações, no contexto da educação escolar, são indicativas, para que se pense no ápice de cada ser, envolvido ou não, com a escola. Quais ações que se quer preservar e construir para que elas atinjam a sua excelência?
A questão acima não é de fácil solução. Ao longo da história encontram-se inúmeras visões de mundo e, com elas, inúmeros apontamentos de ações. A humanidade não encontrou a fórmula universal para que todos pudessem viver e alcançar aquela excelência enquanto ser. Tanto que há outra formulação refutando a tese da ‘meta a ser alcançada’. Nesta o foco é contexto. É nele que se configuram as possibilidades. Esta dificuldade, longe de ser negativa, pode e, em inúmeras vezes, se constituiu, no grande sentido da vida em grupo social. Esta busca por encontrar os meios para que o sujeito e o outro se edifiquem no mais alto grau de suas possibilidades. Este esforço, de busca e construção, remete ao que já fora apresentado, anteriormente, sobre reconhecimento e composição. A necessidade de ver o outro e, tê-lo como diferente, mas crer que é possível construir com ele. Isto é a base da virtude da tolerância.
A tolerância é a virtude que “... só intervém na falta de conhecimento”. (Comte-Sponville, 1995, p. 175) Quando não se tem uma posição definitiva diante de um tema; quando aquilo que se diz ainda não é consensuado; quando as ações que se quer conservar e ensinar não estão definidas; quando, enfim, o conhecimento de algo não é efetivo, é o momento da tolerância.
Não se trata de ser passível, muito menos de se isentar da situação. Ao contrário, a virtude da tolerância, compreende a apresentação da formulação, por parte do sujeito; o ouvir aquilo que o outro tem a dizer; o pensar com ele; e, juntos, construírem um significado compartilhado. Tal procedimento não é fácil de ser concretizado. É necessária uma grande abertura para com o outro e, esta aqui, o fato da tolerância ser uma virtude. Neste sentido, Comte-Sponville, escreve que:
“(...) só é virtuoso se assumirmos (...), se superamos para tanto nosso próprio interesse, nosso próprio sofrimento, nossa própria impaciência. A tolerância só vale contra si mesmo, e a favor de outrem. Não há tolerância quando nada se tem a perder, menos ainda quando se tem tudo a ganhar em suportar, isto é, em nada fazer.” (Comte-Sponville, 1995, p. 176)
Este é o desafio da educação escolar no que se refere à questão étnica: educar pessoas para que sejam tolerantes. Por se tratar de um tema que compreende visões diferenciadas de mundo; cuja, as indicações de atitudes não são uniformes; onde as significações não são comuns; e o conhecimento gerado não é universal; se faz necessário a revisão constante dos conceitos e das atitudes . Para que isto se efetive não basta apenas dominar as informações sobre a etnia negra, saber da história desta etnia, saber das leis que combatem a discriminação, saber das obrigações morais para com o outro, isto tudo não implica, necessariamente, na transformação das ações. Entre o saber e o fazer, nestas questões, apresenta-se um grande fosso e, por isto, a educação escolar, que se faz sistematizada, ganha outra dimensão.
A educação escolar, enquanto ensino, tem uma intencionalidade, tem um objetivo final a ser alcançado e, para isto, lança mão de um método . Para esta temática étnica, o método mais adequado, é aquele que tem como estrutura a reflexão filosófica feita entre o sujeito e o outro.

2. A reflexão filosófica supera o discurso
Já fora acenado que o ensino se caracteriza, basicamente, pela sistematização de determinados saberes que são apreciados e ofertados aos novos – crianças, adolescentes e jovens. O domínio destes saberes possibilita aos novos a integração ao todo social, bem como, contribui na ampliação dos seus conhecimentos. Contudo, certos saberes não são assimiláveis pelo simples discurso. Certos saberes, para serem assimilados, passam por um processo interno que está fora do alcance do professor que inicia o aluno. Aliás, se pensar em termos de conceitos, deve-se admitir que é possível o seu entendimento e a sua retenção, mas não se pode dizer muito da sua assimilação para colocá-los em prática. Isto se torna mais perceptível quando os conceitos envolvem valores morais, no caso específico, na relação com o outro – o diferente, étnico.
A questão étnica, na dimensão como se apresenta, envolve uma dimensão teórica e prática. De um lado tem-se toda a história da humanidade que resgata os momentos de interação que gerou aproximação entre os povos. Mas, têm-se, também, momentos marcados pela crueldade. Compreender tais situações, de interação e de violência, não se constitui tarefa difícil, mas a partir dela criar outra atitude prática, torna-se um grande desafio.
Desta forma, discursar sobre questões étnicas desejando que se criem outras motivações práticas de respeito ao diferente, pode não resultar em êxito. O discurso informa, pode conceituar e até indicar uma ação, mas deixa dúvidas quanto a sua assimilação prática.

V. Finalizando
A proposta de um pensar reflexivo, de orientação filosófica, sobre a relação étnica é de uma complexidade tamanha que encanta, que inquieta e impulsiona a busca por novas elaborações. O jogo contínuo de adaptação às novas configurações e, o constante surgimento de mudanças nestas configurações, até então consolidadas, fazem brotar novas demandas ao questionamento por parte daqueles que desejam entender este movimento humano. Movimento humano que implica, contingentemente, na relação entre o sujeito e o outro. Este insuperável duo, sempre presente na pauta da humanidade.
Muito mais do que ofertar aos novos os conceitos embutidos em discursos sistematizados, o ensino deverá proporcionar também momentos de reflexão. Uma reflexão franca, sem amarras, que é própria da filosofia. Isto desafia os esforços no sentido de entender, por meio de categorias filosóficas, como a exposição – se ver e ser conhecido – que possibilita a composição – eu e o outro, subsidia, também, a criação de ações que tem por objetivo a eliminação deste eu ou deste outro. Questionamentos e inquietação voltados, em especial, sobre o espaço escolar onde o passado e o futuro estão em embate contínuo neste presente.
Tudo isto, para dizer da necessidade de se dar um tratamento filosófico à questão étnica negra. É verdade que cada sistema filosófico tem seus conceitos próprios, tem uma linha mestra que direciona suas análises, tem suas formulações que a caracteriza frente as demais. Mas, na base, o filósofo, é aquele que desprendido, intelectualmente falando, depara-se com um problema. Ele analisa o contexto em que vive, tem a sua intuição, levanta hipóteses. Dado ao desprendimento intelectual ele se coloca aberto para as inúmeras possibilidades, formula sua teoria. As conclusões que ele propõe, se é honesto, não é um ponto final, mas é aquela sistematização possível para o momento. Passa a ser teoria e objeto de estudo, mas, não fecha a questão. Enquanto filosofia ela está sempre aberta para pensar o novo, mesmo que isto altere todo o sistema pensado anteriormente.
É neste sentido que se aponta para reflexão filosófica . Existe um problema a ser pensado, existe um caminho a ser percorrido, pode-se até chegar em algumas conclusões, mas é preciso cultivar o espírito aberto para recomeçar sempre o mesmo percurso. E isto tudo requer maturidade intelectual e a manutenção da curiosidade para aprender sempre mais.
Ao apresentar os três pilares para se realize a reflexão filosófica, estamos indicando que a temática étnica não se resume aos discursos sobre o diferente. Estes discursos apontam para valores morais, recuperam aspectos da história, sensibilizam as pessoas. Contudo, entendemos que isto tudo ainda não demove os espíritos para que tenham outra atitude .
Para que se dê um salto de qualidade e, a escola venha de fato ser o diferencial, é necessário lançar mão de outros objetivos frente aos alunos e professores. Para isto, também, se faz necessário dar subsídios para que as mudanças ocorram. Assim, ao apresentar as reflexões sobre a ‘educação para o pensar’ e, a questão étnica negra, objetiva-se construir novas relações pautadas no entendimento (racional) de que o diferente existe e que é legítimo a sua existência. Tal compreensão já implica em uma atitude de tolerância frente a si e ao outro. Deste entendimento espera-se o surgimento de novas ações (atitude) que contribuam para que as pessoas sejam e vivam com mais dignidade.

















Bibliografia:
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Aristóteles, Ética a Nicômacos. Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1999.
Bauman, Zygmunt. O Mal-Estar na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editora. 1998.
Comte-Sponville, André. Pequeno tratado das grandes virtudes. São Paulo, Martins Fontes, 1999.
Freud, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. Rio de Janeiro. Imago. 2002.
Gomes, Nilma Lino. Educação cidadã, etnia e raça: o trato pedagógico da diversidade. In: Racismo e anti-racismo na educação: Repensando nossa escola. Org. Cavalheiro, Eliane. São Paulo, Sammus, 2001.
Revista USP, O Negro no Brasil. Instituto de Estudos Avançados, São Paulo, 2004.
Lipman, Mathew. Filosofia na sala de aula. São Paulo, Nova Alexandrina, 1994.
Ryle Gilbert. Ensino e Treinamento. The Concept of Education. Londres, Routledge &
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Schilling, Flávia. A multidimensionalidade da violência. In: Educação, Cidadania e
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Oliveira, Jorge Alves. A educação e a formação de atitudes que envolvem valores morais. Dissertação de Mestrado. FEUSP, 2006.(ainda não publicado)
_________________. Amantes do Futebol. xérox (ainda não publicado) 2006.
Oliveira, Jorge Alves. Martelli, Márcio. Bate-papo no Gramado – Filosofia: Razão e Emoção. Jundiaí-SP. Editora In House. 2008.

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