Jorge Alves de Oliveira
O ser humano pode ser caracterizado de diversas formas. Pode-se dizer, entre outras coisas, que ele é racional, que ele é filho de Deus, que ele é criativo, que ele é um sentimental. A lista seria enorme. Para esta reflexão, o destaque que se quer fazer, é sobre a dimensão da escrita. O ser humano é um ser que escreve. Este ato é corriqueiro para muitos, porém, não pode ser subestimado, sobretudo, nas sociedades que se assenta sobre a escrita.
Uma referência importante sobre o papel da escrita encontra-se na obra de Lewis H. Morgan (1818 – 1881). Este autor norte-americano – antropólogo e etnólogo – estabeleceu os critérios básicos, para identificar os estágios evolutivos de cada sociedade. Segundo ele e, a escola evolucionista, havia uma “... unidade psíquica do homem que permitia que todos os povos mais cedo ou mais tarde evoluíssem em sua cultura.” (Mello, 2005. p. 208) Assim, os povos que estivessem na selvageria – dominando o fogo – passariam para a barbárie – fazendo cerâmica, cultivando a terra, domesticando os animais – e, chegariam à civilização – realizando a escrita. (Morgan, 1877). Nota-se, portanto, que a escrita é colocada como sendo o critério central para se dizer do estágio maior a ser alcançado pelo ser humano.
Outro dado significativo da importância da escrita, derivado do entendimento acima, encontra-se na prática adotada, sistematicamente, pelos povos dominadores. Após subjugar um determinado grupo social, os dominadores, procuravam isolar ou eliminar as lideranças guardiãs da memória do grupo. As sociedades que tinham na oralidade a referência de sua identidade perdiam-na com a morte destes guardiões. Um exemplo real deste prejuízo encontra-se nas comunidades indígena e africana. Como remontar suas histórias se as fontes primárias foram mortas? Como superar as dificuldades de acesso às fontes que permanecem vivas? Por outro lado, uma vez que se tenha acesso às fontes vivas, como transformar estes relatos em material acessível à sociedade como um todo? Neste mesmo sentido, os documentos guardados nos museus, igrejas, cartórios, cemitérios, são brutos e necessitam de uma linguagem adequada à população em geral. Necessitam de uma tradução adequada ao fenômeno: escrita.
Mas, a importância da escrita não se encerra nestes apontamentos. É necessário que se atente para o requinte do ato de escrever. A escrita é possibilitada pela anatomia humana. O movimento de pinça, obtido pela presença do polegar opositor, garante ao ser humano a possibilidade de segurar o objeto, com o qual se escreve e, ter a precisão para traçar os contornos que dão forma às palavras. Além disto, o ato de escrever envolve o equilíbrio entre a emoção e a razão. É necessário que se tenha serenidade para escrever, ao mesmo tempo em que se acionam as faculdades mentais. Além do que é preciso ter conteúdo – teórico ou a experiência de vida – ou tão somente inquietações, que se quer convertido em tema a ser escrito.
A escrita, para além da tese evolucionista e do uso inadequado que se fez, é, ainda, o gesto de emancipação do ser humano. A possibilidade concreta de expressão, de perpetuação de uma ideia ou de um sentimento ou de um relato faz do ser humano alguém impar. A escrita exigirá a precisão daquele que escreve. A palavra justa que não dê margem para outra interpretação diferente daquela que se quis comunicar.
A importância da escrita, por fim, é que ela coloca a necessidade de se escrever. Uma vez escrito, é preciso fazer visualizar estes escritos. Eles revelam como cada ser humano capta aquilo que o cerca. Um registro para a humanidade, de pessoas que não passaram pela vida, sem deixar o seu registro por escrito.
Esta segunda parte da reflexão busca associar a escrita com a responsabilização. Não se trata de censura, mas de se ter presente que o ato de escrever não é algo inocente. Um dos grandes fenômenos deste período contemporâneo é o da exposição. Não há indivíduo oculto, isolado. Há, sim, uma complexa rede que impede o anonimato. Primeiro, porque a própria existência física do indivíduo, já o coloca exposto. Este, indivíduo, é composto de um corpo e, este (corpo), manifesta o que ele pensa e sente. É com este corpo que ele luta e ocupa o espaço social. O corpo que lhe possibilita uma condição única frente aos demais indivíduos. Segundo, o indivíduo encontra-se exposto porque o meio em que ele vive solicita, o tempo todo, um posicionamento. A família, a escola, o trabalho, o grupo religioso, a mídia, entre outros, estão, continuamente, apresentando situações problemas e, ele, não pode se omitir. Aliás, a omissão já é um posicionamento. Por fim, uma terceira forma de exposição, é proporcionada pelos ‘olhares ocultos’, frente ao qual o indivíduo, não tem como se ocultar. Estes ‘olhares’, mantém o indivíduo vigiado vinte e quatro horas seguidas. Eles escancaram as ações do indivíduo e, recolhem elementos para que seja traçado o seu perfil. Exemplo concreto são as câmaras que estão espalhadas nas ruas, nas rodovias, nos prédios – públicos ou privados. ‘Olhares ocultos’ que substituem a presença física daquele que é tido como autoridade, responsável pela manutenção da ordem. Esta terceira formulação aproxima-se daquilo que Benthan conceituou como ‘panóptico’. Olgária Matos, no texto, “Sociedade: tolerância, confiança, amizade” (disponível na internet) escreve que o “... indivíduo se torna dócil, submetendo-se a uma vigilância tanto real quanto visual. O panóptico é um pequeno teatro, onde cada detento aprende a desempenhar seu papel de prisioneiro para um público hipotético”.
Caso haja concordância com esta leitura e, de fato, os indivíduos estejam expostos, há que se verificar, também, que tal condição ainda lhe é agradável. Ainda segundo Olgária Matos, reinterpretando Foucault, “imagem e exposição total possuem no mundo do fetichismo significados secretos: ao mesmo tempo em que a imagem visível dos governantes deve ser periodicamente trabalhada, tudo deve ser mostrado a fim de torná-los próximos, já que tudo acompanhamos acerca de sua vida privada. Ao mesmo tempo, porém, há sempre nisto algo de inacessível, de implacável e estranho. Em outras palavras, a imagem pública, transforma-se em mercadoria e se comporta como as leis do mercado. A sociedade do direito vê-se sorvida pelo mundo anárquico da publicidade e do capital.”
A citação apresentada toma como referência o mundo político, mas, certamente, estende-se a todos os indivíduos. Vida privada, vida pública, vida expostas, misturam-se em meio as individualidades. O que surpreende, contudo, é que tal fenômeno, ainda que externo e imposto, vai ao encontro de alguns desejos secretos do próprio indivíduo.
É dentro deste contexto que o ato de escrever não é algo inocente, como se disse no início. Alguém poderá estar escrevendo apenas para ocupar o famigerado quinze minutos de fama. Estar expondo a sua vida apenas para não ser esquecido. A ideia de ser esquecido lhe acarreta um grande mal-estar. Não é sem sentido que as livrarias do mundo todo estão repletas de biografias e, este gênero, ocupa o ranking dos mais vendidos. Expor-se e olhar a vida do outro é um jogo fascinante, mas que traz consigo inúmeras questões, entre elas, a mais aguda: saber do outro, expor-se ao outro, para compor o que com ele?
Mas, certamente, haverá aqueles que escreveram como ato de deleite da alma humana. Expuseram suas impressões, as suas intimidades por meio deste jogo de palavras. O ato sublime de apresentar com palavras as apreensões e as sensações advindas da experiência humana de viver. O jogo de palavras onde o signo nem sempre designa o objeto e, por isto dá margem para as viagens em busca dos significados.
Por fim, encontraremos aqueles que se expuseram por meio do ato escrever tendo em vista as gerações que virão. Estes desejaram deixar um legado à humanidade. O fizeram comprometidos com uma causa. Eles desejaram a imortalidade? São humanos, portanto, é possível afirmar que sim. Contudo, a imortalização não se encontra no ato individual do escrever, mas, sim, no objeto público tomado como tema de sua escrita. No resultado público obtido por meio de seu ato de escrever. A beleza do ato de escrever, portanto, não reside numa suposta inocência, mas, sim no legado às gerações que virão.
Bibliografia
Mello, Luiz G. Antroplogia Cultural. Petrópolis. Vozes. 2005.
Morgan, Lewis H. A sociedade antiga. In: Castro, Celso (org). Evolucionismo cultural. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor. 2005.
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