terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Não há vida sem cuidado – final

A questão que se coloca nesta última parte do projeto ‘Gostar de si é cuidar-se’ é o da temática. O foco é a escola, a pública em especial, mas é adaptável a todos os segmentos da sociedade.
Por escola entenda-se todos os segmentos que formam a comunidade escolar. A temática, portanto, deve nascer e atender a realidade desta comunidade. A equipe escolar, os professores por ofício, apresentam o mundo aos novos. Hannah Arendt alertava que mesmo não sendo o mundo que se deseja pelo adulto, é isto que se tem a oferecer aos novos. (Entre o Passado em o Futuro). De fato o mundo que se revela aos novos é o resultado da vivência da humanidade como um todo e nele encontram-se a excelência e a degradação.
Buscar a excelência ou degradar-se pode corresponder ao grau de estima e consciência que se tem. ‘Gostar de si é cuidar-se’ pode ser o critério para as escolhas. Mesmo aceitando a tese da historicidade ainda é possível criar uma consciência de si e construir ações de mudança no quadro concreto que se tem. Neste sentido há que se afirmar que o mote acima é uma ação, fundamentalmente, política. Depreende-se de Paulo Freire (Pedagogia do Oprimido) que a tomada de consciência de si e da realidade, problematizada, mediada pela troca de palavra com o outro (diálogo), deva conduzir a ações de transformação do mundo em que se está. O ‘gostar-se’ e o ‘cuidar-se’, portanto, implicam o outro. Repetindo: é uma ação política.
Assim é possível falar do tema ‘pensar’. ‘Gostar de si é cuidar-se’ dando atenção à mente. Cuidar da mente é entre outras coisas organizá-la. Isto é feito por meio do repertório recolhido, selecionado e cultivado nos ‘estudos’. Por sua vez, estudar pede ‘tolerância’. O tolerar pede atenção, respeito, diálogo com ideias, sobretudo, as que são divergentes. É daqui que surgem as significações comuns. Ambos, pensar e tolerância auxiliam nas escolhas para saber conter ou liberar a adrenalina e a libido nas situações de ‘trânsito’, com as ‘drogas’, com a ‘sexualidade’. Outras possibilidades de convívio.
Os temas, contudo, devem nascer junto com a comunidade para que a realidade possa cada vez mais se revelar e ser modificada. Este é o maior legado da educação: fazer com que as pessoas tenham consciência de suas vidas e possam interferir nelas.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Projeto "Gostar de si é cuidar-se"

Não há vida sem cuidado

Jorge Alves de Oliveira


A vida é grandiosa e frágil ao mesmo tempo. Uma vez vivo tudo é possível e é aí que reside a sua grandeza. Contudo, se não houver cuidado tudo está arruinado. A vida carece de cuidado. Ela somente é mantida em função do cuidado que se tem. Ainda. Toda dignidade que ela encerra, também, está condicionada a este cuidado.
O prof. Gabriel Perrisé, buscando explicar a etimologia da palavra ‘cuidado’ disponibilizou na rede social “A nossa palavra "cuidado" procede do latim cogitare, "pensar", "conceber", "preparar". Todos estes verbos remetem a uma dimensão prática. Não se trata de fazer oposição entre a teoria e a prática, mas de enaltecer o caráter do fazer viver. Um ‘fazer viver’ pensado. É possível dizer de uma práxis do viver. Vive-se, pensa-se esta vida, vive-se. A chave, portanto, destas formulações sobre o cuidado com a vida passa a ser o pensar. Pensar é ponderar. É mensurar as diversas possibilidades e optar pela qual é mais viável. O critério de escolha e de viabilidade?!? A vida com dignidade. Aquela possibilidade que melhor atenda ou conduza à excelencia.
Diante de tudo isto é plausível considerar o papel da educação para o viver com dignidade. A criança é cuidada pelos pais e educada para cuidar de si mesma. Mais tarde ganha o cuidado da escola e passa a ser incentivada a cuidar da mente. O prof. Mathew Lipman dizia de um pensar cuidadoso e criou uma metodologia de ensino para que as crianças se apropriassem dele. Tal metodologia apóia-se na filosofia, pois, está traz em sua essência o pensar.
Neste momento decisivo da vida escolar dos novos é fundamental que os adultos disponibilizem todas as ferramentas possíveis para que os estudantes façam de forma autônoma a sua escolha a favor da vida digna. Este cuidar da mente, incide drasticamente sobre a vida em todas as suas dimensões.
Educação escolar, neste sentido, não é formatação modeladora, mas sinalizações que permitam que os agentes visualizem os elementos promotores de vida e aqueles que a destroem. O pensar cuidadoso leva em conta os valores morais, mas não é moralizante. Muito menos é paralisado na estrutura lógica. Este pensar cuidadoso leva em conta o contexto em que se vive, os valores consagrados e busca ressignificá-los em função das ações que virão.
É passada a hora de se propor como projeto escolar o slogan “Gostar de si é se cuidar”.


Jorge Alves de Oliveira. Mestre em Filosofia da Educação pela USP. Especialização em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Graduado e bacharel em Filosofia pela UFPR. Professor de filosofia na E.E. Prof. João Batista Curado – Jundiaí – SP. E-mail: jorgeafro@ig.com.br blog: afrojorge.blogspot.com

Projeto "Gostar de si é cuidar-se"

Não há vida sem cuidado – 2

Jorge Alves de Oliveira


Ao indicar como mote pedagógico de 2011 “gostar de si é cuidar-se” é preciso explicitar a sua dimensão política e social. A ação humana sempre se inspira e implica o outro. ‘Gostar de si’ pode ser opção da pessoa sobre si mesmo, mas será, também, necessidade vital do grupo social. O mesmo vale para o ‘cuidar-se’. A vida é da pessoa, mas está umbilicalmente atrelada aos outros.
‘Gostar de si é cuidar-se’, portanto, é um compromisso consigo e com os outros. Lembrando que ‘cuidar-se’ é pensar-se e isto implica em ponderações. Ponderar é mensurar para fazer escolhas. Escolher o que? Aquilo que expande a vida com dignidade. Neste contexto fazer escolhas para que a vida seja vivida na sua excelência.
Fazer escolha não é fácil. ‘Não se pode abraçar o mundo’ como diz a sabedoria popular. Isto obriga a ter presente critérios para a escolha. Neste processo selecionam-se pessoas, selecionam-se locais, seleciona-se bate-papo, selecionam-se ideais. É fundamental, contudo, que não se perca em meio a preconceitos e discriminações promotoras de exclusões – sinônimo de morte. A não escolha está associada às práticas destrutivas da vida e isto não implica em desconsiderá-los enquanto pessoas que, também, trazem em si a dignidade. O ‘gostar de si’ e o ‘cuidar-se’ não pode promover desprezo para com a pessoa humana.
Entende-se, assim, a dimensão da proposta. ‘Gosta-se de si’ e para manter-se ‘cuida-se’. E por quê? Para não perder aquilo que é mais precioso: a vida. Este apreço e este cuidado devem instigar os outros a também cultivarem esta postura. Mais. O desprezo e descuido colocam todos em risco.
Longe, portanto, de um discurso moralista ou moralizante o mote deste projeto é a preservação e o desejo de viver. No ambiente escolar encontram-se os desejos de viver. Cada olhar, sorriso, gesto expressa tal anseio. Mesmo na ação destrutiva é possível visualizar o apelo desesperado pró vida. Cabe, pois, aos adultos evidenciarem os sinais de vida. Isto se efetiva por meio do estudo.
As proposituras e os argumentos a serem apresentados são avalizados pelo acúmulo de experiência da humanidade ao longo da história. O ‘gostar de si’ entra, então, na dimensão do ‘cuidar’ da mente. É por meio das ideias que se fortalece o desejo de viver e o de cuidar-se.


Jorge Alves de Oliveira. Mestre em Filosofia da Educação pela USP. Especialização em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Graduado e bacharel em Filosofia pela UFPR. Professor de filosofia na E.E. Prof. João Batista Curado – Jundiaí – SP. E-mail: jorgeafro@ig.com.br blog: afrojorge.blogspot.com